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Sociedade, Caldas da Rainha
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Bares de alterne

12-02-2009 |

Bares de alterne
Bares de alterne
Clientes aliciados a beber com ilusão de sexo Vistos do exterior, parecem bares vulgares. Contudo, o seu interior esconde os dois mais antigos vícios do homem. Álcool e mulheres. Mas ali não se procura vender o corpo. "Vende-se companhia", conta uma das alternadeiras. Nos bares de alterne, os clientes são incentivados a pagar bebidas a preços exorbitantes, em troca de convívio. Por alguns minutos de companhia, conversa e talvez uma dança ou duas, um cliente gasta facilmente entre 50 a 100 euros, muitas vezes numa bebida apenas. Cabe à "alternadeira" ser astuta o suficiente, para levar o homem a gastar o máximo no mínimo de tempo possível. Depois da primeira abordagem e do primeiro copo, tudo se torna mais fácil. Aqui ganha mais quem melhor souber seduzir o cliente. Frutos de relacionamentos problemáticos, casamentos desfeitos, carências afectivas ou insegurança económica, homens e mulheres reconhecem nestas casas o local ideal para se encontrarem e lucrarem com esse encontro. A bem da verdade, elas lucram mais do que eles. A maioria das mulheres da noite prefere "esconder-se" com os usuais disfarces (perucas e lentes de contacto de cor) e nomes "artísticos", mas também trabalha no alterne quem prefira não usar nada disso, ficando-se apenas pelo nome fictício. Com uma pseudo-simpatia, pseudo-afecto e uma conversa envolvente em que não faltam as promessas de um possível encontro sexual (raramente concretizadas), estas mulheres conseguem levar os mais carentes e/ou desprevenidos a gastarem muitas vezes o dinheiro que não têm. Mas esse é o preço. O preço do jogo de sedução ilusória que os homens que frequentam as casas de alterne parecem estar dispostos a pagar. Amplamente difundidas em Portugal, as casas de alterne continuam a constituir um dos mais bem sucedidos negócios da noite. Segundo as estatísticas, das cerca de 30 mil mulheres que vivem do negócio do sexo no nosso país, 10 mil trabalham em bares de alterne. Embora estes espaços de diversão nocturna se encontrem consideravelmente longe dos velhos padrões da prostituição, o certo é que continuam a ser confundidos com "casas de meninas" onde o sexo é a transacção principal. A região Oeste acolhe vários destes por isso seleccionamos três para perceber como funcionam. Bares completamente diferentes quanto ao seu aspecto físico e clientela que os frequenta, mas iguais na forma como funcionam. "Muitos clientes procuram-nos apenas para desabafar" Carla (nome fictício) tem 25 anos, é portuguesa e trabalha na noite há 4. Foi mãe aos 18 de uma menina que nunca conheceu o pai, porque este não a quis assumir nem vê-la uma única vez . Depressa percebeu que os 350 euros que levava para casa, do seu trabalho como caixa num supermercado, mal chegavam para pagar a renda das águas- furtadas em que vivia em Lisboa. Por isso não hesitou quando uma amiga a convidou para trabalhar com ela numa casa de alterne em Setúbal. "Eu precisava mesmo de ganhar mais dinheiro. Com o meu salário já só conseguia aumentar as dívidas e foi em muito boa hora que soube do bar", conta. Segundo o relato de Carla, a sua situação ainda melhorou mais quando foi para um bar de Torres Vedras. "Aqui consegui uma casa melhor e mais barata e como não existem tantos bares em Torres também não há tanta concorrência, logo conseguimos trabalhar mais", afirma. E em que consiste esse trabalho. Carla foi peremptória ao responder que o sexo nunca fazia parte do acordo entre ela e o cliente: "Limito-me a abordar o cliente, sendo simpática com ele. Apresento-me, pergunto se posso ficar ao lado dele e caso a resposta seja afirmativa a conversa flui naturalmente", revela. E do que costumam falar? "De tudo. Dos problemas deles. Às vezes até dos problemas que têm em casa, com os filhos, as mulheres. Muitos clientes procuram-nos apenas para desabafar. E nós ouvimos, estamos atentas, mostramos interesse. O cliente gosta disso. Ser boa ouvinte é um requisito fundamental para se trabalhar nesta área", refere Carla. "Depois sugerimos ao cliente que peça uma bebida para ele e outra para nós. Isto deve acontecer nos primeiros 10 ou 15 minutos de conversa, porque não podemos perder muito tempo com o mesmo cliente", descreve. Decorridos mais alguns minutos de conversa após a primeira bebida, surge o pedido para uma segunda. E assim sucessivamente. A "alternadeira" só abandona o cliente quando percebe que este não está disposto a pagar mais. "Quando o cliente diz que não paga mais, então saímos da mesa e abordamos outro. Mas não somos mal-educadas. Despedimo-nos da mesma forma simpática, porque queremos que esse cliente volte", sublinha. E quando o cliente é mais atrevido e se quer aproveitar da mulher, o que fazem? "Nesse caso, deixamos bem claro que não é para isso que aqui estamos. Nós apenas fazemos companhia ao cliente, Dançamos para ele ou com ele se for o caso. Nunca mais do que isso. Para evitar problemas temos sempre o segurança que vai passando para ver se está tudo bem e evitar abusos. Se for mesmo necessário o cliente é convidado a sair". 3500 a 5000 euros por mês Com alguma sorte, mas também muito "engenho", uma noite pode render a Carla e a mais 5 mulheres que ali trabalham, cerca de 200 euros. Às vezes mais. Em média ganham por mês cerca de 3500 euros mas podem chegar aos 5 mil. Recebem no final de cada noite o valor total da primeira bebida e 50% das posteriores. "Tudo depende dos clientes que entram. Tem mais a ver com a quantidade de clientes do que com o recheio das suas carteiras. Neste bar quase todos os que entram são de classe média/média alta e até alta. Por isso costumam pagar bem. Se forem muitos, melhor ainda", explica. Aqui os preços das bebidas não diferem muito dos praticados em outros bares. O mínimo que um cliente paga por uma bebida que oferece a uma mulher são 15 euros. Neste caso o copo apenas contém sumo ou água. E poucas são as mulheres que aceitam bebidas nesse valor. "Nem pensar. Eu não estou com um cliente por 15 euros. Peço sempre o primeiro copo no mínimo de 25 euros, nesse caso já pode ser whisky ou vodka, qualquer coisa com álcool. Depois existem ainda outros preços, um copo de 30, 50, ou 60 euros. E temos ainda as garrafas de champanhe ou whisky, embora as de champanhe sejam as mais pedidas", relata. Neste bar de alterne em Torres Vedras, as luzes criam um convite à intimidade e na pista está o varão onde Carla faz os seus shows de strip-tease (pool dance) e por isso mesmo acaba por ser uma das mulheres mais bem pagas do bar. "Os clientes preferem pagar bebidas às mulheres que dançam. E por vezes até pedem uma table dance ou um privado. É aqui que entram as garrafas de champanhe. Por uma "mini gância", por exemplo, eu tento sempre acordar com o cliente 120 euros para cima, chegando às vezes aos duzentos, em troca de uma dança no reservado", admite a alternadeira. Como a maioria das mulheres que trabalham no alterne, Carla não parece importar-se que a vejam nua, enquanto rodopia no varão, com uma sensualidade que não passa despercebida a nenhum dos homens que a vêem. "Sinto-me desejada. E isso dá-me poder. Eu sei que é assim que consigo levar o dinheiro que quero para casa. Gosto muito de seduzir. De estar no controle. É o desejo deles que os leva a pagar e eu limito-me a alimentar esse desejo com este jogo. Mas não passa de um jogo. Sexo, só faço com quem eu quero e desejo também", confessa. Quando perguntamos se Carla se sente realizada com a vida que tem, a resposta não podia ser mais honesta: "Realizada? Não. Claro que não. Gostaria de ter sido enfermeira. Ainda estudei até ao 9º ano. Não foi possível mais. Mas é a vida que tenho. Agora tenho namorado, tenho a minha filha comigo, ganho bem, compro o que quero e ainda tenho a admiração dos meus clientes. A amizade deles. É um mundo quase perfeito". "O que acontece no privado não tem nada a ver com sexo" Entre Caldas da Rainha e Rio Maior encontramos outra casa de alterne, que chegou a ter 15 mulheres a trabalhar, quase todas oriundas dos países de Leste. Poucas brasileiras e ainda menos portuguesas. Tal como noutros bares que o nosso jornal visitou, não existem mulheres a trabalhar ilegalmente. A maioria é casada. Algumas mães. No entanto, ali estão, noite após noite, para ajudarem com mais algum dinheiro no orçamento familiar. Ao contrário do anterior, este não tem entre os seus clientes homens de classe média/alta. Aqui as classes baixa e média são predominantes. O próprio espaço em si também não convida à entrada de um público mais exigente. Mas as mulheres, não sendo modelos, chamam a atenção, quanto mais não seja devido ao tipo de roupa que vestem. Reduzido. Provocante. Quanto aos preços, o mesmo. Bebidas no mínimo de 15 euros, sendo constituída apenas por sumo ou água, e as alcoólicas de 25 até 30 euros o copo. E claro, depois as garrafas de whisky ou champanhe. 50, 80, 120, 150 euros ou mais ainda se o cliente aceitar pagar. Aqui as mulheres ganham 60% do que conseguirem que o cliente pague. Em média 100 euros por noite. Cerca de 2.500 euros por mês. Em frente aos espelhos que revestem as paredes da sala principal, Mónica (nome fictício) dança alegremente com as colegas enquanto espera que o bar se encha de clientes. Também aqui o ritual de aproximação é o mesmo. Primeiro fazem-se as apresentações, depois um pouco de conversa e a sugestão da bebida. Alguns minutos depois observamos Mónica a sair da sala com o cliente em direcção a um cubículo isolado e escuro, onde cabe apenas um pequeno sofá. Atrás deles segue o segurança com o balde do gelo e a garrafa de champanhe. Trinta minutos depois, Mónica regressa à sala. Ficámos então a saber que o tempo estipulado no privado são exactamente os trinta minutos. Se o cliente quiser mais tempo, terá de pagar outra garrafa, que custa no mínimo 120 euros. Mas Mónica desta vez conseguiu acordar a ida ao privado por mais uns euros. 150. "O que acontece no privado não tem nada a ver com sexo. O que acontece é que alguns clientes preferem estar mais à vontade. A maioria dos nossos clientes são de perto e não querem ser vistos aqui por alguém que os reconheça. Por isso preferem o privado." Mónica tem 34 anos e deixou a Ucrânia há 2. Já se apaixonou mas nunca casou. Um amor não correspondido empurrou Mónica para as teias do alterne. "Ele não me amava. Usou-me. O amor não presta. Não quero amar outra vez. Isso é só ilusão. Maior ilusão que a que vendemos aqui todas as noites. Aqui eu não faço sofrer ninguém, e por amor eu já sofri demais", desabafa. "Antes isto do que a prostituição" "Aqui nós só seduzimos o cliente. Somos simpáticas, alegres e damos afecto. É tudo o que a maioria quer de nós. E quando aparece algum que quer mais do que isto temos que saber dizer não. Antes isto do que a prostituição", avança. Se as mulheres que trabalham no alterne não vendem sexo, quisemos saber o que leva a generalidade das pessoas a pensar que sim, e porque é que esta actividade não é bem vista pela sociedade. "As pessoas são preconceituosas e falam mal do que não conhecem. Muitos dos que dizem mal nunca entraram num bar de alterne", sustenta. Apesar disso, Mónica reconhece que também aqui não há regra sem excepção. "Algumas mulheres fazem sexo por dinheiro. Mas a maioria não faz. E as que fazem, raramente o fazem aqui. Combinam com o cliente e fazem lá fora. Mas isso é péssimo. Para além de elas passarem uma má imagem da actividade, ainda estragam o negócio. Cliente que paga lá fora, não vem pagar cá dentro e isso é mau para o negócio", diz. Por mais irónico que pareça, segundo Mónica, a única coisa que a mantém afastada da família que deixou na Ucrânia é precisamente o seu apego a ela. "Eu dou muito valor à minha família. Sou muito apegada a ela. E é pelos meus familiares que estou em Portugal. Do que eu ganho aqui, pouco fica comigo. Mando-lhes praticamente tudo. Sou eu quem sustenta os meus pais, avós, irmãos e sobrinhos. Não quero que lhes falte nada", indica. "Eu não sou prostituta" Com oito anos de experiência na noite e 36 de vida Suzy (nome fictício), confessa "sem papas na língua" que já passou pela prostituição mas trocou a "venda do corpo" pela "venda de companhia". Saltitou por várias casas de alterne, tendo encontrado "poiso" nos últimos tempos num bar mais pobre e de aspecto duvidoso, nos arredores da Benedita. Com condições semelhantes às dos outros bares, funciona com quatro, no máximo, cinco mulheres, quase todas oriundas de Leste, mas aqui quem "dá as cartas" é uma brasileira rebelde e atrevida, que diz já ter apanhado com toda a tareia que a vida foi capaz de lhe dar. Com quatro filhos ainda menores a viver do outro lado do Atlântico, dois deles fruto de um segundo casamento que também terminou mal, Suzy conta ter já sido por várias vezes vítima de violência por parte dos homens com quem se relacionou. Por isso, não é de estranhar o azedume na voz, nem a frieza no olhar quando nos fala das motivações que a levaram a procurar esta vida. "Eu sei que já vendi a alma ao diabo. E continuo a fazê-lo quando finjo ser simpática com estes homens que aparecem aqui. Mas é a única maneira de eu conseguir o dinheiro", comenta. Mas assegura: "Eu converso apenas. Seduzo. Mas não chego ao contacto físico. Eu não sou prostituta. Se o cliente me paga bebidas porque fica na expectativa de um dia ter relações sexuais comigo...problema dele. Eu aqui não faço nada disso". Quando perguntamos se Suzy consegue permanecer sóbria durante toda a noite, apesar do consumo excessivo de álcool, a sua resposta não deixa margem para dúvidas: "Ingerimos poucas quantidades de álcool. Quase sempre 90% de água ou sumos e 10% de álcool. No caso do whisky é ainda melhor, porque podemos trocar por sumo de maçã sem que o cliente repare na diferença". Os bares que visitámos não parecem ter como prática comum o incentivo ou exploração da prostituição (o que constitui o crime de lenocínio). Com ou sem prostituição, as casas de alterne continuarão a vender ilusões e pseudo-afectos. Cristina Pinto
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